domingo, 10 de janeiro de 2021

João

 Olhou de volta pra sua trajetória e sentiu orgulho, ficando satisfeito com algumas associações e sabedorias que acreditava serem boas em comparação com as que tivera antes. E então pensou se esse sentimento de orgulho era permitido às pessoas como ele ou se cada um devia se dedicar sempre à busca incansável por alguma coisa, sem jamais se contentar.

João não sabia a resposta pra isso

Externalizando

Como escrever palavras que sejam verdadeiras e não só uma história bonita? 


Parece que eu tenho uma música dentro de mim, mas não sei tocar ela.


A verdade dá um gosto diferente. 

 Um céu branco em uma tarde quente. Eu me sinto tão livre e tão solitário ouvindo música ecoar suave em uma casa vazia. É como se eu não soubesse o que fazer, uma sensação conhecida no peito, uma vontade de chorar. Olho pras cortinas balançando ao balanço do vento seco que entra da janela.

Tenho vontade de pegar esse vento e jogar na terra com sangue pra enterrar. 

Haha.

Saudade de pessoas.

...

Você às vezes quando vai escrever sente que tudo aquilo que você queria dizer já foi dito?

Músicas fervilham os afetos, cozinhando sentimentos antigos. Os sons evocam a juventude desprendida e volúvel à dança da lua. 

Mas as palavras não pintam imagens. Cada letra é tão pouco e me falta alma

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Vida

Sol de verão assando, céu sem uma nuvem. Sopra um vento seco do sudeste. Meu amor e eu conversamos sobre coisas que queremos, que não queremos, que sempre quisemos e que nunca mais vamos querer.
- Vou pedir isso de aniversário. Faço 22 anos em alguns dias.
- Ah é?
- Caramba, 22 anos...
- Que que tem?
- Que desperdício.
- Como assim?
- É demais. É muita vida pra viver. 
- E falta muito ainda.

Depois de algum tempo a mais de conversa, conforme as sombras projetadas pelo sol se movem de um lado para o outro, sou convidado pra uma experiência intensa de transcendência e espiritualidade. Vamos?
- Eu não.
- Por que não?
- Sou muito apegado ao meu eu.
- Achei que era um desperdício.
- Sou muito apegado ao meu desperdício.

Risos.

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

E quando nada mais houver para tirarem, você vai sentir a dor de perda uma vez mais.

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Minha mãe e eu

Era domingo, às 15h do dia do meu aniversário de 21 anos. Minha mãe, meu amor e eu sentados os três à mesa enquanto tomava meu café da manhã e bebia um chá de casca de cebola pra me recuperar da ressaca do dia anterior. Em algum momento durante a conversa, minha mãe faz-me um carinho no braço e com os olhos meio marejados diz "me lembro quando fui te ter!"
Ela sorria iluminada enquanto contava das três amigas que a visitaram, saíram para beber e voltaram fazendo algazarra no corredor do hospital durante a madrugada, e de como ganhei um mapa astral e uma fotografia - batida nesse dia por um "fotógrafo do nascimento" - que ela gostou tanto que comprou, apesar de criticar a comercialização desse momento.
Imaginei-me então pequenino e aninhado em seus braços, minhas mãozinhas débeis se mexendo para agarrar o ar e a expressão no rosto dela quando me segurou pela primeira vez. Me peguei pensando na vida, e me peguei pensando na morte. Pensei no meu amigo-irmão, agora padrinho do filho de amigos, e imaginei esse como um futuro próximo para a minha vida e a dos meus semelhantes; regozijando em comemoração à vida e enterrando os parentes mais idosos. Fiquei ali naquela contemplação esquisita, de estar me antecipando ao nascimento e à morte com a sensação de que não estaria preparado para nenhum dos dois quando viessem.
Agora, com minha mãe sentindo diminuir uma parte de sua incrível energia e os irmãos que vieram antes há muito em outros caminhos, sou eu quem testemunho o passar de seus dias, e decido contar essa história para prestar uma homenagem. Muitos desses eventos aconteceram quando eu era pequeno demais ou não estava lá para presenciá-los, mas eu sempre pude exercitar o dom da Escuta e ao longo dos anos tornei-me confidente desses relatos, ouvindo o ressoar nos corações dos outros. Hoje, mais velho, tornei isso meu ofício, como fez minha mãe antes de mim e em algum grau minha avó antes dela.
A verdade da história, no entanto, assim como na minha profissão, provavelmente está em algum lugar entre os muitos relatos que se conta sobre as coisas, mas eu, o caçula, trago essa verdade. 

Carla sentia o amor de sua vida escorrendo feito areia entre seus dedos, e soube que não havia nada a ser feito: o pai dos seus três filhos no mundo e do filho em seu ventre anunciava estar apaixonado por outra pessoa. Em estranhos e atemporais instantes, tudo pareceu onírico e uma amálgama de imagens fluiu, transportando-a para a época em que o conheceu na residência do hospital e os dois empurravam um carro enguiçado na madrugada adentro. Ela podia se ver claramente, como uma espectadora, abrindo a porta e deixando sua companhia por alguns segundos estupefato, a boca semi aberta em formato de "o". Saíra imediatamente; jamais lhe ocorrera não ir ela mesma empurrar um carro e um passageiro pelas ruas. "Você é louca", dissera ele, antes da imagem se dissolver lentamente até ceder seu lugar a outra.
Em uma região fria e montanhosa, o casal trilhava seu terceiro dia em direção à cidade histórica de Machu Pichu. Portando um mapa desenhado à mão, Carla sentia raiva de si; no dia anterior, seu desejo de se manter asseada levou-a a se banhar em um rio gélido, e o que começou com uma pequena irritação na garganta eventualmente acabou por levar sua voz. Ao enfim terminar da caminhada, encontraram o portão da cidade - um grande portão de ferro - fechado, e decidiram com a ajuda de um habitante local passar pelo desfiladeiro e pular o portão, sob risco iminente de cair penhasco abaixo. Carla riu de nervoso. Quem em sã consciência faria uma coisa dessas?
Eu faria, pensou, e ele comigo. Vendo novamente o homem à sua frente, teve a sensação incômoda de um embrulho na barriga, e soube que algo não estava certo. Não era isso que havia planejado para sua vida.
- Você quer que eu fique aqui até que ele nasça e cresça um pouco?
Carla estremeceu. Pensou na estrita escola católica para meninas que frequentou durante a infância e adolescência. A escola era dirigida por padres, embora houvessem também ali freiras responsáveis por parte da educação. Uma delas, Irmã Agnes, lhe era particularmente querida, e um dia pegou-lhe aos risinhos com as amigas no intervalo enquanto observavam - do alto de uma árvore no pátio - jovens rapazes a caminhar pela rua. A freira pediu que descessem e, ao se ajoelhar, olhou fundo nos olhos de cada uma. Acreditando que ralharia com ela, Carla sentiu a garganta fechar, mas Irmã Agnes apenas sorriu. Durante o resto do intervalo, falou sobre sexo e sobre uso de preservativos, respondendo a todo tipo de perguntas que os três pares de olhos curiosos lhe faziam. Já de pé, a Irmã olhou novamente para as três e pediu que as jovens não dividissem o conteúdo dessa conversa com os padres, antes de rodopiar suas vestes e sair.
Pensou, ainda, em sua mãe, que não muito tempo atrás se formara em uma turma em que havia, além dela, apenas uma outra mulher. Decorrente dessa graduação, a senhora recentemente passara a lecionar Psicologia em uma importante universidade, e anos antes confidenciara à filha que essa decisão foi a contragosto do marido: quando o assunto vinha à tona, o homem tornava-se casmurro, resmungando que "mulher dele não precisa estudar nem trabalhar". Carla sentiu um aperto no peito e as mãos ficarem frias ao se lembrar dessas histórias, e em quanto tempo demorou para que as entendesse como o que eram.
Preciso ser forte.
- Se não é por mim sua paixão, não more mais aqui. Pode ir.

domingo, 31 de dezembro de 2017

Meh [14]

Capítulo 14: Dias e dias

Existir do jeito que eu tenho existido envolve dias bons e dias ruins. Às vezes fico pensando em tudo que carrego há muito tempo e isso torna um dia ruim. Às vezes uma conversa boa faz um dia bom, às vezes uma coisa qualquer empurra o dia pra algum dos dois lados. Tem dias em que acordo me sentindo bem ou mal sem motivo aparente, e posso ficar o resto do dia sem conseguir definir o que me deixou de um jeito ou de outro.
Hoje, por exemplo, eu só queria rastejar para algum buraco escuro e morrer. Passei pela minha lâmina de barbear no banheiro e imaginei como seria cortar meus pulsos na vertical, colocar a lâmina ensanguentada de volta na bancada e observar os desenhos vermelhos que o sangue faria no meu braço, a frequência com que pingaria no chão, a ardência onde a lâmina beijaria. Conseguiria ver as gotas manchando o chão e sentir minha consciência se esvaindo, a vista escurecendo, eu tentando me apoiar na parede conforme minhas pernas bamboleavam até desmaiar em algum canto qualquer e morrer numa poça do meu sangue. Imaginei se alguém descobriria meu corpo, quem seria e em quanto tempo, ou qual seria a reação da pessoa. 
Foi quando uma voz na minha cabeça me disse que era triste e mórbido pensar nessas coisas, e "como sua mãe ia ficar?". Esse pensamento me fez chorar, ao passo que perguntei à voz "por que você não só me deixa morrer?". Então fui para o chuveiro, onde não ia conseguir saber se ainda estava chorando, sentei no chão e deixei a água fumegante cair pelas minhas costas e o vapor embaçar os vidros até que meu corpo anestesiasse a sensação me deixando dormente, uma espécie de torpor corporal. Fiquei alguns minutos debaixo da água com as luzes apagadas, só a mim mesmo para me fazer companhia, só a mim o fardo de me compreender e lidar comigo, um estrangeiro dentro da minha própria casa. Meio enrolado na toalha, limpei o vapor do espelho e estranhei a figura que olhava de volta para mim, achei-a esquisita e irreconhecível, como se não fosse realmente eu, mas um dublê vivendo em um mundo paralelo e desconhecido onde a vida era outra.
Deitado na cama e enrolado no cobertor, me sentia confortável e aconchegado. Aqui eu não preciso fazer esforço ou fingir estar feliz, ninguém me incomoda e eu não incomodo ninguém. É quase como morrer. Suponho que oito horas de morte tenham que ser o suficiente por hoje. Um dia de cada vez, pensei.

É que eu fico pensando como seria, sabe. Nessas horas, sempre penso como seria se esse ou aquele momento não tivesse acontecido, fico revivendo os eventos na minha cabeça tentando descobrir quando tudo começou a dar errado e invento novos desfechos que acabam em vidas que eu nunca vou viver. Em nenhuma dessas a Julia vai embora.